Vídeos

Steve Bannon saúda extrema-direita francesa com retórica trabalhista

Steve Bannon Publicado em 23.10.2018

Discurso de Steve Bannon ao Congresso da Refundação do Front National, de Marine LePen, 19/3/2018, vídeo, 35”54’ (ing. com trad. simultânea ao francês) aqui transcrito e traduzido pela Vila Mandinga). O discurso do marketeiro mostra, curiosamente, como a extrema-direita se apropria como retórica do programa de esquerda, de defesa dos interesses dos trabalhadores, para realizar um programa fascistizante, de ruptura com instâncias democráticas e desprezo por minorias, vistos como parte do stablishment corporativo contra os trabalhadores.

[1”35’] “Muito obrigado pela acolhida calorosa. Marine Le Pen disse essa semana que não se pode olhar para a política pelo velho espectro da esquerda e direita. Vimos na Itália, e em Washington, DC., uma perfeita representação disso. Na Itália, dois terços da população foi voto anti-establishment.  

E em Washington, DC, essa semana nosso amado presidente Trump finalmente pôs porta a fora os globalistas. Já era mais do que hora!

Vocês viram na Itália, o movimento 5 estrelas e a Lega, não que concordem em tudo, não. De fato o movimento 5 estrelas é movimento de centro-esquerda. Mas uniram-se para votar contra a elite política de Roma e de Bruxelas.

Em Washington, DC, o presidente Trump expôs seu programa econômico nacionalista e foi atacado pelo Partido Republicano e seus doadores. Marine Le Pen viu claramente que não se trata de direita e esquerda. Isso é simplismo, é o modo que a mídia capitalista sempre escolheu para nos impedir de chegar ao poder.

Ela disse perfeitamente: para vocês, o Estado Nacional é obstáculo a ser superado ou, ao contrário, é uma joia a ser polida?.

Não vim para ensinar. Vim à Europa como observador e para aprender. E o que aprendi é que vocês já estão envolvidos num movimento planetário, maior que a França, que a Itália, que a Hungria, maior que isso tudo. E a história está do nosso lado. 

A maré da história está a nosso favor e nos empurrará de vitória, para vitória, para vitória

Os governos centrais, os bancos centrais, as empresas centrais de tecnologia no centro do capitalismo de compadrio [ing. crony capitalism] existem para nos controlar e nos levam pelo “caminho da servidão”, de três modos diferentes: os bancos centrais estão do negócio de desestabilizar a moeda de vocês. E o capitalismo de compadrio, as potências tecnológicas estão no negócio de desestabilizar a própria pessoa [own personhood] de cada um de vocês.

Prof. Hayek [Friedrich Hayek, 1944. The Road to Serfdom, Chicago: University of Chicago Press / O caminho para a servidão (7h13)] ensinou: “o caminho da servidão vem dessas três vias”.[1]

Falemos dos bancos centrais. Converteram vocês em escravos da dívida. Quando isso tudo começou? Em 2008, certo? O que fizeram os bancos centrais, os grandes bancos, os grandes governos e todos os doadores? Na crise financeira, só cuidaram de si mesmos. Em 2008, quando os mercados quebraram, as economias afundaram, eles abriram as torneiras da liquidez nos bancos centrais [...]

Os banqueiros usaram juros negativos para emprestar o dinheiro para eles mesmos e fazer mais dinheiro. Banqueiros roubam de vocês para entregar a eles mesmos. Destroem sua renda. Destruíram seu poder de compra, destruíram seus meios para ganhar dinheiro. Montaram um sistema perverso para extrair todo o valor do seu trabalho e de tudo que você ganhou, para dar aos acionistas. E obrigam a você a sempre correr sem avançar, como um hamster na gaiola. Não para acumular dinheiro você mesmo, mas para você pagar dívidas. Na verdade, eles fazem seguros para se proteger das dívidas de vocês, para que vocês nunca saiam da dívida.

Como se não bastasse, sua própria pessoa, sua capacidade intelectual, o que você produz todos os dias, seus próprios data, tudo que você produz, cada fiapo de informação, cada fiapo de dado, construíram um sistema com o capitalismo de compadrio – empresas gigantes como Facebook, Google e Amazon – para extrair sua propriedade intelectual, todos os dias, de graça. Extraem informação de você, sem pagar nada.

Essa é a razão pela qual essas empresas valem centenas de bilhões de dólares: [10’59”] porque os meios de produção são completamente grátis para eles. Trabalham mancomunados com os governos centrais. Operam algoritmos secretos, dos quais você não tem notícia e aos quais você não pode chegar, para controlar vocês cada vez mais. Já tiraram seus dados, sua soberania, seus dons pessoais.

Na campanha de 2016, essa foi a temática central da campanha vitoriosa do presidente Trump.

Em agosto 2013 e 2014, quando eu entrei na campanha, ele havia perdido muitos pontos em todos os estados cruciais.

Não tínhamos organização, quase dinheiro nenhum, mas tínhamos o melhor candidato que os EUA jamais conseguiram. Única coisa que tínhamos de fazer era deixar Trump ser Trump [13”21’].

Não esqueçam que Trump derrotou quinze dos melhores candidatos que o establishment e o Partido Republicano algum dia conseguiram reunir [cita]. Derrotamos todos (13’31”).

Pedimos que o presidente Trump se concentrasse em três coisas: (1) ponha fim à imigração ilegal em massa e limite a imigração legal (14”14’), de modo a ajudar a devolver a soberania aos trabalhadores norte-americanos; (2) traga de volta para os EUA os empregos de manufatura que foram para a China (14”42’); (3) caia fora dessas guerras sem sentido no Iraque e no Afeganistão [tradutora ri de felicidade e o público aplaude demoradamente (15”17’)].

Lembram da noite da eleição? A mídia e os especialistas pasmos, chocados.

Onde está aqui o pessoal da mídia de oposição? (15”42’, alguém aponta, Bannon sorri e cumprimenta). Por que eles estão chocados? Por que os patrões deles os mantêm como reféns, desprezados como os trabalhadores, “os deploráveis”.

Essa gente jamais acreditou que a classe trabalhadora nos EUA pudesse algum dia votar a favor de seus próprios interesses [16”31’].

Quando cheguei à campanha, disse ao presidente Trump: “não se preocupe com os 16 pontos de diferença [contra]. Não se preocupe com a diferença de 2 dígitos, contra nós, nos estados cruciais. Não se preocupe por não termos dinheiro. Só um número conta: a pesquisa mostrou [17”16’] que 75% dos eleitores entendem que os EUA estão em declínio. E as classes trabalhadoras e classes médias nos EUA não estão preparadas para aceitar isso.

As elites norte-americanas estão pouco ligando para o declínio dos EUA [17h45”]. Porque as elites compreenderam logo que ganham tanto dinheiro quando a população morre de fome, quanto eles roubam quanto a economia vai bem. Os trabalhadores e as trabalhadoras e as classes médias nos EUA apoiarão qualquer candidato que faça EUA grandes outra vez [“Make America Great Again”, MAGA].

Daquele dia em diante, o presidente Trump passou a denunciar Hillary Clinton como a personificação daquela elite corrupta e incompetente e seu respectivo establishment [19h13]. Por favor entendam bem: “elite corrupta” e “incompetente”.

Eu venho de família da classe trabalhadora. Meu pai trabalhava para uma empresa de telefones. Tem 96 anos e trabalhou a vida inteira. Toda sua poupança e todas as economias dele foram destruídas em 2008. Depois de uma vida de jogar ‘pelas regras’, meu pai foi destruído pela elite financeira que só pensou no próprio interesse delas.

Tive muita sorte na vida, porque estudei em Georgetown e Harvard [universidades], por ter trabalhado na Goldman Sachs, por ter minha própria firma que vendi à Société Génerale [20’43 vaias. Bannon sorri: “Sabia que vocês iam gostar!”] Tive a honra de estar nas diretorias que tomavam decisões. Vi todas as mais importantes elites. Toda aquela turma que vai a Davos, os “Davos Men”.

Pois se me mandarem escolher entre ser governado pelas 100 primeiras pessoas que entraram aqui nesse Congresso hoje, ou ser governado pelas 100 primeiras que se inscreveram para Davos, eu escolheria os 100 que entraram aqui hoje [a tradutora pira: “Eu escolheria ser governado pelas 100 primeiras pessoas do Congresso do Front Nacional!” [21’26’].

E se me mandassem escolher entre ser governado pelas primeiras 100 pessoas que vestem o boné vermelho num comício de Trump, ou ser governado pelos 100 maiores acionistas da Goldman Sachs, eu escolho ‘os deploráveis’ de boné vermelho [22’18”]. É a decência de vocês, as ‘ganas,’ a determinação de vocês, a simples humanidade comum de vocês. Essa é a razão pela qual a história está do nosso lado [22”43’]. É a razão pela qual eles têm tanto medo de vocês.

Por que chamam vocês de racistas e sexistas, xenófobos, ‘nativistas’ [a nativist (ing.); designa os que não querem receber imigrantes e só querem cidadãos que sejam cidadãos nativos, nesse caso, dos EUA (NTs)], homofóbicos e islamofóbicos e misóginos? [23’19”] Porque não sabem responder as perguntas que vocês põem diante deles.

Vocês argumentam a favor da soberania, eles chamam vocês de “nativista” . Vocês exigem liberdade, eles chamam vocês de xenófobo. Vocês defendem seu país, eles chamam vocês de racista.

Pois os dias de tantas ofensas acabaram [24”16 aplausos e vivas. Marine Le Pen na primeira fila, 5ª da direita da tela para a esquerda, aplaude].

Cinco dias depois de eu entrar na campanha, Hillary Clinton fez um discurso contra mim. Sobre Bannon e Breibart. Chamou-me de suprematista, racista, misógino, a lista toda. Na sala de controle, assistimos ali, cercados de telas de TV, eu e os jovens da minha equipe de mídia. Era dia 18 de agosto. [25’20”] E eu disse “Se ela vai fazer essa política suja de identidades, nos chamar de racistas, xenófobos e ‘nativistas’, podem escrever: com 100% de certeza metafísica, ela vai perder [24’44”].

Agora temos as ferramentas para vencer. A tecnologia está aliada à liberdade. O caminho de vocês para a servidão foi fechado.

Pelo lado da moeda, blockchain e criptomoedas vão levar vocês à liberdade. Os bancos centrais estão em pânico absoluto [26’30”], porque sabem que vem aí uma moeda que vocês podem controlar. E aquele fiat money que mantém vocês rodando como um hamster na gaiola, tem meia-vida muito curta.

Eles também compreendem que vocês podem ligar-se uns aos outros. E que essa política pode devolver a soberania a vocês. [27’29”]. E quebrar a espinha de Google, Facebook e Amazon.

A última parte, é a batalha pela cidadania.

Quando eu estava na Bussiness School, em Harvard, nos anos 1980s [27’40”], ensinavam um mantra, que mudou completamente a finança das grandes corporações: maximizem o valor de cada acionista. Todo o resto, trabalhadores, consumidores, marketing, sociedade civil, esqueçam. Só não esqueçam que o mantra manda maximizar o valor do acionista. Assim, mudaram Wall Street [28”35’], mudaram os EUA corporativos. E de um modo muito profundo, mudaram o modo como nós todos vivemos.

Mas com Marine Le Pen e o Front National, Salvini e a Liga Norte, nossos compatriotas na Holanda e na Polônia, e nosso bem-amado presidente Donald G. Trump [29’07”] dos EUA, estamos agora no negócio de maximizar o valor da cidadania. [29’23”].

A mídia de oposição, a porta giratória da grande elite corporativa chamam Trump e Bannon de “suprematistas brancos”, mas o nacionalismo econômico do presidente Trump não cria diferenças entre raças, religiões, etnias, nem entre nível de escolaridade ou educação, ou entre gêneros, nem faz diferença entre preferências sexuais. O nacionalismo econômico do presidente Trump só considera e preocupa-se com uma coisa: se o cidadão é cidadão dos EUA.

(Aponta para onde antes já localizara a mídia de oposição [30’54”]) Quero que o partido da mídia de oposição responda uma pergunta: Quando, em todos os tempos, o desemprego entre os negros foi mais baixo do que hoje, nos EUA? O emprego entre os hispânicos está no ponto mais baixo, em 17 anos. O salário dos trabalhadores na construção e na agricultura está subindo pela primeira vez em uma geração.

(Aponta novamente para o “partido da mídia” [32’11”]) Mas eles defendem a elite globalista de Hillary Clinton. Aquela gente em Bruxelas, na City de Londres e em Washington, DC. [Vaias]. O pessoal do BCE, Banco Central Europeu, e de Wall Street. Todos esses cometem crimes de ódio econômico [32’42”] contra os negros e os hispânicos da classe trabalhadora. Tinha de vir alguém como Trump, que chamaram de racista todos os dias, para resolver o problema do desemprego da classe trabalhadora nos EUA.

É uma honra para mim estar aqui hoje. Vocês atravessaram luta longa e difícil. Nosso movimento popular nacionalista [Bannon diz “popular” (ing.), tradutora diz “populiste” (fr.) [33’49”] nos EUA tem apenas dez, quinze anos. Estamos aqui para aprender com vocês. Mas posso dizer-lhes uma coisa, depois de atravessar o mundo observando, no Japão, na Coreia, no Oriente Médio, de Kansas City, Arizona, ao Alabama, e agora na Europa Ocidental. A história está do nosso lado. Isso, porque os globalistas não têm resposta para a liberdade.

Deixem que chamem vocês de racistas. Deixem que chamem vocês de xenófobos. Deixem que os chamem de ‘nativistas’. Usem as ofensas como uma medalha de honra. Porque a cada dia nós nos fortalecemos e eles ficam mais fracos. Muito obrigado. Deus abençoe a América. Vive la France.

[1] O objetivo de Hayek, para o colóquio de Mont-Pelérin em 1947 era: "descobrir meios para enfrentar a crise moral, intelectual e econômica da Europa do pós-guerra, construindo um projeto político-econômico para um povo livre numa grande sociedade.

Como subproduto desse projeto, defendia a ideia de desmascarar os inimigos dessa sociedade aberta e de determinar as causas da crise europeia através de uma crítica contundente ao fascismo e ao stalinismo. Embora crítico ao totalitarismo nas duas grandes expressões em que esse se apresentou na História do século XX, Hayek concentrou-se no "caminho da servidão instaurado pelo que considerou o racional construtivismo de Marx ou os dissabores do totalitarismo de uma ordem que é fruto do plano ou do desígnio de uma classe operária consciente. Hayek constrói sua crítica a Marx concentrando naquilo que seria o pecado capital da razão: uma razão onipotente oriunda da classe operária que transformaria a sociedade numa máquina racional, uma razão que é capaz de digerir a própria complexidade e que constrói pela deliberação de seus sujeitos sociais um devir socialista (Hayek, 1973 e 1988)” (GANEM, Angela. “Crítica à leitura hayekiana da História: a perspectiva da ação política de Hannah Arendt”. Nova econ. [online]. 2009, vol.19, n.2, pp.267-284. ISSN 0103-6351.  http://dx.doi.org/10.1590/ S0103-63512009000200003 [NOTA PARA AJUDAR A COMPREENDER A FALA DE BANNON, ‘hayekista’ assumido].