Entrevistas

Três questões sobre Marx

Júlia Lemos Vieira Publicado em 05.05.2018

A professora da USP, Júlia Lemos Vieira, responde a três questões básicas sobre Karl Marx e seu pensamento, na data de seu aniversário bicentenário.

1- Como você explicaria a teoria marxista para um leigo, considerando a dialética e a luta de classes?

Mesmo para um leigo, penso que é possível remeter às próprias palavras de Marx para se explicar a luta de classes, sobretudo às suas palavras expressas nos seus Manuscritos Econômico-FIlosóficos de 1844: é evidente que há uma luta contra a classe trabalhadora, dado que é fato que "o trabalhador fica mais pobre à medida que produz mais riqueza e sua produção cresce em força e extensão. [Que] O trabalhador torna-se uma mercadoria ainda mais barata à medida que cria mais bens. [Que] A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta do aumento de valor do mundo dos objetos (...)[Que] o trabalho humano produz maravilhas para os ricos, mas produz privação para o trabalhador.
[que] ele produz palácios, porém choupanas é o que toca ao trabalhador. Ele produz beleza, porém para o trabalhador só fealdade. Ele substitui o trabalho humano por maquinas, mas atira alguns dos trabalhadores a um gênero bárbaro de trabalho e converte outros em máquinas. Ele produz inteligência, porém também estupidez e cretinice para os trabalhadores". O que Marx avalia é que existe um desenvolvimento histórico no modo como o ser humano trabalha: inicialmente o trabalho é para os seres humanos uma maneira de se alienarem, empobrecerem e explorarem uns aos outros e, posteriormente, o trabalho é uma forma de satisfação e de relacionamento humanista um com o outro. O capitalismo é uma espécie de trava deste movimento de desenvolvimento do processo de trabalho humano em seu primeiro momento de estranhamento. Esse momento de estranhamento no processo de trabalho é que possibilita que uns acumulem o produto do trabalho de outros e que tal acumulação fixada pela legitimação da propriedade privada repete-se como estranhamento do trabalho e apropriação do fruto do trabalho por outro a cada processo de produção. Marx defendeu que esse ciclo não só pode como deve ser rompido, pois apenas com o seu rompimento é que o processo de trabalho ira sair de seu momento de estranhamento e passar para o seu momento de fazer do trabalhador um ser que toma posse de todo a sua humanidade, tanto como posse de seus objetos quando como posse de sua subjetividade e de sua irmandade humana.

2-Pensando no contexto político e econômico do Brasil, o que podemos trazer das ideias de Marx para a nossa realidade? Você acredita que elas ainda possam ser aplicadas de alguma maneira?

É muito constante no Brasil de hoje o discurso de uma polarização forjada simplesmente através do discurso. Entretanto, de um ponto de vista histórico, a polarização é estrutural e sempre se intensificou diante da falência das superestruturas em conter as contradições intrínsecas da infraestrutura econômica que, em momentos de crise, empobrece ainda mais as classes médias e pobres e enriquecem ainda mais as classes altas, aumentando assim o fosso que se expressando como polarização de dois extremos. No Brasil tivemos um momento de administração do capitalismo que de alguma forma vinha conseguindo driblar o agravamento da crise econômica internacional e permitir um certo contorno dela por meio de estímulo à ascensão das classes mais baixas através de políticas públicas e de estímulo ao consumo combinadas. Mas a reação daqueles que perdiam privilégios se deu no sentido de exercer uma pressão contra esse processo através de uma extrapolação ideológica, política e jurídica do tema do combate à corrupção - que tanto oculta as diversas e essenciais perca de capitais públicos – levando a uma explosão da crise econômica e da luta de classes e, portanto, da expressa polarização. As ideias de Marx surgem importantes para compreender o Brasil atual quando é tão manifesta a existência de uma oposição da elite a quaisquer mínimas políticas de ascensão dos de baixo e quando nos vemos obrigados a admitir a impossibilidade de superar as contradições do capitalismo num interior de uma administração do Estado burguês que não rompe com as estruturas perniciosas que sustentam o sistema de opressão do grande capital sobre o trabalhador assalariado, do latifúndio sobre o agricultor familiar, do monopólio sobre o médio e pequeno comerciante.
É constante o retorno à Marx nas repetidas crises capitalistas e no modo como arrastam cada vez mais médios e pequenos empreendedores à infelicidade do trabalho assalariado concomitante com o fortalecimento dos monopólios e grandes bancos. Além disso, é preciso considerar que a despeito de muitos dos atuais movimentos sociais não se reconhecerem no marxismo, é possível sugerir que Marx está mais vivo do que morto neles. Como aspectos fundamentais dessa sugestão indico tanto a identificação por parte de tais movimentos da democracia liberal como uma democracia abstrata e quanto a identificação da liberdade capitalista como liberdade abstrata, como realidade de opressão social. Muitos dos movimentos anti-capitalistas contemporâneos que não possuem como ponto de partida a crítica de Marx da alienação do Estado acabam por retornar essencialmente a ele quando questionam as instituições políticas vigentes; quando atentam-se para uma espécie de estranhamento em relação a elas, para um reconhecimento de que tais instituições não são na prática aquilo que afirmam ser no direito positivo: garantia do interesse público. Para além desse não reconhecimento das instituições vigentes como efetivamente democráticas suscitar de algum modo a crítica de Marx ao Estado burguês, também Nos textos do jovem Marx, vemos que a luta pela suprassunção do capitalismo e da democracia formalista surge justamente como forma de realização da liberdade de cada um, pois nele, o comunismo aparece como uma associação em que o indivíduo adentra não por obrigação, mas porque surge mais livre do que na anterior, justamente porque nela ele já não vale apenas pelo que produz economicamente e pelo que possui, mas pelo seu ser. A análise empreendida nos Manuscritos de 1844, por exemplo, indica como a competitividade individualista acaba por oprimir a liberdade do indivíduo ao invés de realizá-la parece estar mais evidente hoje do que nunca: ainda mais reduzidos ao valor de eficiência produtiva ou de quantidade de posses, a meros objetos do fazer (econômico) e do ter, os indivíduos na contemporaneidade expressam um desconforto cada vez maior com o seu modo de vida. Marx denuncia seu incômodo com a falta de sentido da existência, na qual a liberdade individual se dá no interior de uma competitividade cruel que enseja relações individualistas em termos de vitória de uns sobre os outros, alimentando uma angústia constante. 

3- Há muitas distorções sobre a teoria marxista hoje. Por qual motivo isso acontece, na sua opinião?

Penso que o motivo fundamental é a luta de classes e da disputa ideológica que ela suscita, a qual se desequilibrou sobretudo a partir da derrocada do socialismo real soviético. Não tardou para que o sepultamento da URSS se desenvolvesse como um definitivo sepultamento de Karl Marx: se o comunismo soviético expressava o marxismo em si mesmo, também ele teria sido completamente ultrapassado com o triunfo da democracia ocidental. Então essa derrocada foi repercutida no meio liberal como uma colagem entre marxismo e antidemocracia e houve uma deliberada exploração dos equívocos do socialismo real no sentido de oprimir qualquer contraposição fundamentada em Marx à ordem social existente como um risco eminente de queda em governos totalitários.
Qualquer aprofundamento honesto nas obras de Marx evidencia que essa redução é uma grande distorção, pois, a despeito de quaisquer tensões nelas presentes, surge a evidência de que que sua oposição à democracia liberal se justificava apenas por uma ampliação da democracia a partir da dissolução da privatização da política que fundamenta o Estado burguês desde a sua primeira constituição. A difundida incompatibilidade entre marxismo e democracia geralmente decorre de leituras que veem em Marx uma teoria fechada da história, que operam uma redução da totalidade da obra de Marx a um momento específico e, sobretudo, à pouca relevância dada à uma essencial continuidade entre o republicanismo do jovem Marx e o comunismo do Marx maduro. Neste sentido, é importante reverberar a genealogia docomunismo marxiano para demonstrar como ela está completamente intrincada com o desenvolvimento de seu projeto emancipatório a fim de demonstrar que o seu materialismo não se desenvolveu numa contraposição unilateral à democracia, mas justamente na busca de um desenvolvimento e aprofundamento desta. A exploração utilitarista e descuidada do tema do totalitarismo favorece apenas às classes privilegiadas e que obviamente pesou, juntamente com outros aspectos, para o desenvolvimento de uma recusa de aprofundamento no marxismo por parte até mesmo de movimentos sociais anti-capitalistas.