Autores - FÁBIO PALÁCIO E CRISTIANO CAPOVILLA - Gonçalves Dias, poeta da nacionalidade

Gonçalves Dias, poeta da nacionalidade - Parte 2

Fábio Palácio e Cristiano Capovilla Publicado em 18.11.2013

A carga de lusitanidade em sua formação diz muito da personalidade de Gonçalves Dias. Porém, se esse é o elemento capaz de explicar diversos elementos de sua poesia, tanto no polo da expressão e do sentido — como seu nativismo radical — quanto no polo da construção literária — como as “cadências garrettianas” de seu lirismo —, não seria possível entender, tomando-se apenas o fator lusitano, por que motivo Gonçalves Dias construiu uma poesia tão autenticamente brasileira. É nesse momento que somos impulsionados a considerar o elemento mais propriamente brasileiro da mestiçagem.

O poeta das três raças

A vida de Gonçalves Dias esteve marcada, desde os primórdios, pelos acontecimentos relacionados à afirmação da jovem nação brasileira. Caxias, sua terra natal, compôs o último reduto da resistência portuguesa contra a Independência do Brasil.

“Ali se retirara o bravo coronel Fidié e ali foi acometido e cercado por cearenses, piauienses e maranhenses sob a chefia do coronel Pereira Filgueiras, ao qual teve de capitular em 27 de julho de 1823. Muito comprometidos ficaram neste sucesso os principais residentes portugueses da vila, entre eles João Manuel Gonçalves Dias, natural de Trás-os-Montes, negociante na Rua do Cisco, onde vivia amasiado com Vicência Mendes Ferreira, mulher casada e separada do marido. Temendo a perseguição dos nacionalistas, entrados na vila a 1º de agosto, fugiu Manuel para o seu sítio da Boa Vista, levando consigo a Amásia, que dez dias depois dava à luz, em tão precárias e dramáticas condições, o primeiro grande poeta romântico do Brasil.” (BANDEIRA in DIAS, 1998, p. 13)

O fato é cantado pelo poeta em “Caxias”, peça poética na qual afirma:

Antemural do lusitano arrojo,
Último abrigo seu, — feros soldados,
Veteranas cortes nos teus montes
Cavam bélicas tendas! — Um guerreiro,
O nobre Fidié, que a antiga espada
Do valor português empunha ardido,
No seu mando as retém: debalde, oh forte,
Expões teus dias! teu esforço inútil
Não susta o sol no rápido declive,
Que imerge aquém dos Andes orgulhosos
Da África e da Ásia os desbotados louros!

O nacionalismo português também viria compor o painel intelectual e moral que informava a experiência poética de Gonçalves Dias. Seu pai, um comerciante educado nas tradições nacionalistas lusitanas, logo trataria de instilar no filho os nobres valores do amor à terra. Uma História de Portugal escrita por Laclede e a Vida de dom João de Castro, de Jacinto Freire de Andrade, foram alguns dos primeiros livros que lhe caíram às mãos, presenteados pelo pai, de resto um tipo repleto de fervor patriótico.


Em sua cidade natal, tomou parte diversas vezes em campanhas, comícios e demais iniciativas políticas, chegando certa vez a ensaiar uma candidatura. Aliou-se desde sempre com os revolucionários balaios em sua luta contra os bem-te-vis (liberais).


Anote-se, ainda, que os períodos passados na capital maranhense também contribuíram decisivamente para a formação da personalidade do poeta. A São Luís cosmopolita de Gonçalves Dias — um dos principais núcleos populacionais brasileiros do período imperial — tinha uma peculiaridade que se estenderia séculos afora, arrastando-se mesmo até períodos recentes (o que pode ser conferido na trajetória de certos poetas maranhenses do século XX, como Bandeira Tribuzi). Naquela cidade era comum as aristocracias “quatrocentonas” locais, compostas principalmente de comerciantes portugueses (muitos deles donos de grandes armazéns na Rua Portugal), enviarem seus filhos para a realização de bacharelamentos não no Rio de Janeiro, mas em Coimbra e Lisboa. Além dos fatores de ordem cultural (as elites ludovicenses eram quase todas de origem portuguesa), essa realidade tinha como motivação o fato de que o tempo de viagem de navio para Portugal não era muito maior do que o gasto no transporte para o Rio de Janeiro.


Considerando essas condicionantes, não é de causar espanto que na São Luís do século XIX tenha florescido o primeiro núcleo populacional brasileiro com sólida massa crítica no que tange ao domínio idiomático do português. Não surpreende, outrossim, que ali se tenha formado um dos maiores poetas de toda a lírica de língua portuguesa. O fato não passa despercebido a um Alfredo BOSI, que vê na poesia gonçalvina um espaço de atuação direta dos modelos portugueses. “O poeta maranhense tem muito de português no trato da língua e nas cadências garrettianas do lirismo, ao contrário dos seus contemporâneos, sobre os quais pesava a influência francesa” (1992, p. 114).
As “cadências garrettianas” dos versos de Gonçalves Dias aprofundaram-se nos tempos vividos em Portugal. Coimbra sempre foi um importante centro intelectual não apenas português, mas europeu. Lá as ideias românticas associadas à tríade Garrett, Herculano e Castilho faziam seguidores. A juventude universitária empenhava-se em participar desse movimento, fazendo experimentações e buscando colocar a literatura portuguesa em compasso com o melhor das vanguardas europeias.

“Gonçalves Dias integrou-se completamente nesse meio; e sem deixar de ser um jovem intelectual brasileiro empenhado na reforma romântica também no seu país, acompanhou, muito naturalmente, as tendências do gosto e a ação literária da juventude acadêmica portuguesa em que estava integrado.” (AMORA, 1967, p. 140)

A carga de lusitanidade em sua formação diz muito da personalidade de Gonçalves Dias. Porém, se esse é o elemento capaz de explicar diversos elementos de sua poesia, tanto no polo da expressão e do sentido — como seu nativismo radical — quanto no polo da construção literária — como as “cadências garrettianas” de seu lirismo —, não seria possível entender, tomando-se apenas o fator lusitano, por que motivo Gonçalves Dias construiu uma poesia tão autenticamente brasileira. É nesse momento que somos impulsionados a considerar o elemento mais propriamente brasileiro da mestiçagem, sobre o qual tanto insiste Sílvio ROMERO.

“O autor de ‘Marabá’, de ‘A mãe-dágua’, de ‘Leito de folhas verdes’, de ‘O gigante de pedra’, de ‘I-juca-pirama’, de Os timbiras, que é também o autor das Sextilhas de Frei Antão, isto é, o autor do que há de mais nacional e do que há de mais português em nossa literatura, é um dos mais nítidos exemplares do povo, do genuíno povo brasileiro. É o tipo do mestiço físico e moral de que tenho falado repetidas vezes [...]. Gonçalves Dias era filho de português e mameluca, quero dizer, descendia das três raças que constituíram a população nacional e representava-lhes as principais tendências.” (1960, p. 917)

Essa condição de filho das três raças originárias do povo brasileiro teria influenciado sobremaneira a poesia de Gonçalves Dias:

“O poeta, evidentemente sem plano escolástico, espontaneamente e sem impulsos doutrinários, deixou-se influir pela vida dos selvagens, como em ‘I-juca-pirama’ e dez outras composições; pelas tradições portuguesas, como nas Sextilhas de Frei Antão e em Leonor de Mendonça; pelos sofrimentos dos escravos pretos, como na ‘Escrava’ e na Meditação.” (Id. Ibid. p. 920)

Apreciação semelhante é desenvolvida por Gilberto Freire em seu Sobrados e mocambos. Nesse livro, o mais prestigioso antropólogo brasileiro refere-se a Gonçalves Dias como

“O tipo do bacharel mulato. Filho de português com cafuza, Gonçalves Dias foi a vida inteira um inadaptado tristonho. Uma ferida sempre sangrando embora escondida pelo croisé de doutor. Sensível à inferioridade de sua origem, ao estigma de sua cor, os traços negroides gritando-lhe sempre do espelho: ‘lembra-te que és mulato!’ Pior, para a época, do que ser mortal para o triunfador romano.” (apud BANDEIRA in DIAS, 1998, p. 14)

Não terá sido à toa, portanto, que Gonçalves Dias tenha conseguido cultivar sobre o problema etnográfico brasileiro tão aguda percepção. “O poeta possuía a intuição histórica e étnica deste país, o que importa um elogio, atenta a ignorância, por assim dizer sistemática, dos nossos homens de letras em tudo o que se refere a assuntos nacionais” (ROMERO, 1960, p. 929). A afirmação capta um dos aspectos essenciais do projeto gonçalvino, cujas marcas espalham-se por toda a sua poesia. A prosa bíblica Meditação constitui-se no primeiro registro abolicionista da poesia brasileira. Já em “O gigante de pedra” podemos ler:

E no féretro de montes
Inconcusso, imóvel, fito,
Escurece os horizontes
O gigante de granito.
Com soberba indiferença
Sente extinta a antiga crença
Dos Tamoios, dos Pajés;
Nem vê que duras desgraças,
Que lutas de novas raças
Se lhe atropelam aos pés!

A “intuição histórica e étnica” à qual alude Romero jogaria papel destacado, em meados do século XIX, no esforço mais amplo de construção dos princípios de um pensamento nacional enraizado nas letras, nas artes, na filosofia, na ciência. Esse esforço não se deu por encerrado e segue hoje, sob nova roupagem e em novas condições, compondo a face ideológica das batalhas políticas por um novo projeto de desenvolvimento para nosso país.

Que teria a nos dizer Gonçalves Dias 190 anos após seu nascimento? Que inspirações sua poesia seria ainda capaz de instilar-nos em nós, homens e mulheres de tempos já tão distantes? São questões a cuja abordagem este artigo se dedica. Através de sucessivas aproximações, buscaremos fazer ressurgir o poeta e sua poesia naquilo que têm de atual, extraindo desse movimento lições capazes de falar aos corações e às mentes daqueles que dão sequência, nas condições atuais, à missão de dar cores vivas à construção da nacionalidade brasileira — persistente tarefa que teve no movimento romântico em geral, e na poesia de Gonçalves Dias em particular, um de seus pontos culminantes.

É o que veremos na sequência desta série de artigos, cujas próximas partes serão dedicadas à exposição dos traços gerais do movimento romântico.