Autores - FÁBIO PALÁCIO E CRISTIANO CAPOVILLA - Gonçalves Dias, poeta da nacionalidade

Gonçalves Dias, poeta da nacionalidade - Parte 5

Fábio Palácio e Cristiano Capovilla Publicado em 09.12.2013

O estudo das tradições e dos costumes nacionais propugnado pelos românticos assumia um significado eminentemente político, sendo parte de um movimento mais amplo de autodeterminação nacional.

O nacionalismo

A descoberta, pelos românticos alemães, do Volksgeist – descrita na parte anterior desta série de artigos – respondia em larga medida, no plano político, às necessidades de uma série de movimentos nativistas, protagonizados por sociedades que, fustigadas pela dominação estrangeira, aspiravam à revivescência de sua cultura tradicional. Por esse motivo a reação romântica ao Iluminismo não pode ser entendida como um movimento meramente intelectual. O estudo das tradições e dos costumes nacionais propugnado pelos românticos assumia um significado eminentemente político, sendo parte de um movimento mais amplo de autodeterminação nacional.

Como explica  BOSI,

“A nação afigura-se ao patriota do século XIX como uma ideia-força que tudo vivifica. Floresce a História, ressurreição do passado e retorno às origens (Michelet, Gioberti). Acendra-se o culto à língua nativa e ao folclore (Schlegel, Garrett, Manzoni), novas bandeiras para os povos que aspiram à autonomia, como a Grécia, a Itália, a Bélgica, a Polônia, a Hungria, a Irlanda. Para algumas nações nórdicas e eslavas e, naturalmente, para todas as nações da América, que ignoraram o Renascimento, será este o momento da grande afirmação cultural.” (1992, p. 103-104)

A verdadeira novidade trazida à cena pelos arautos do Romantismo constitui-se, portanto, não apenas em uma ênfase abstrata no povo e em suas tradições, mas, fundamentalmente, na convicção de que hábitos e costumes, cerimônias e superstições populares, bem como a poesia, as canções, os contos, os provérbios etc. compunham o todo denominado por Herder “comunidade orgânica” — um arquétipo da nacionalidade, expressão dos anseios e da mundividência de um povo.

Foi assim que canções arcaicas e literatura tradicional foram utilizadas como meio de amalgamar nações. Elas evocavam um sentido de pertencimento capaz de fortalecer a solidariedade política de povos ainda dispersos. Como explica BURKE,

“A descoberta da cultura popular estava intimamente associada à ascensão do nacionalismo. [...] A publicação de Wunderhorn coincidiu com a invasão da Alemanha por Napoleão. Um dos seus dois editores, Achim von Arnim, pretendia que fosse um livro de canções para o povo alemão, com a finalidade de estimular a consciência nacional, e o estadista prussiano Stein recomendou-o como um elemento auxiliar para libertar a Alemanha dos franceses.” (1999, p. 39)

É bem verdade que o esforço de construção da nacionalidade germânica não tinha início com a invasão da Alemanha pelas tropas de Napoleão. O trabalho de intelectuais como Herder, Goethe, Fichte e os Irmãos Grimm dava continuidade às tentativas anteriores de promover a identidade germânica. Importante marco desse processo havia sido a Reforma Protestante, ocorrida ainda no século XVI. À frente do episódio, intelectuais humanistas com fortes vinculações populares.

Com base na redescoberta, por volta de meados do século XV, da obra Germânia, do historiador romano Tacitus — a qual narra a vitória militar do comandante germano-romano Armínio sobre as tropas de Roma nas florestas Teutônicas no ano 9 d.C. —, esses intelectuais pensaram ter encontrado aquele conjunto de virtudes “teutônicas” que estariam ainda impressas no caráter nacional dos alemães, muitas centenas de anos após. Coragem, força, honra e amor à liberdade seriam alguns dos traços capazes de distinguir os povos de fala germânica dos “decadentes” povos neolatinos. Nesse contexto, Lutero viu sua luta contra o poder papal como a continuação de uma antiga vontade de independência e autodeterminação, e invocou então a figura de Armínio como o novo símbolo da campanha de uma “Germânia” renovada contra as atitudes corruptas de Roma.

Não há nenhum disparate em conceber o Romantismo alemão como o elo final do esforço de construção identitária iniciado com Lutero. Nesse longo processo podemos encontrar as bases de uma comunidade nacional germânica e, mesmo, da própria ideia de nação enraizada nas tradições nativas — uma ideia para cuja elaboração a intelectualidade alemã dos séculos XVIII e XIX contribuíra decisivamente, com pioneirismo e grande proeminência.

A tendência de afirmação da nacionalidade pode ser conferida com nitidez na obra de um Fichte, pensador que, sob muitos aspectos, dá continuidade, em um plano mais explicitamente político, às preocupações originais de Herder, Goethe, Heine e dos Grimm. Em suas Mensagens à nação germânica, Fichte busca definir o significado e as propriedades do “ser alemão”. As Mensagens compõem-se de uma série de quatorze palestras proferidas semanalmente, as quais, ao longo do tempo, ocuparam lugar privilegiado na história das ideias nacionalistas. Nelas, Fichte propõe-se pintar um quadro da identidade germânica, apresentando uma visão sobre o que os germânicos têm sido, são e podem vir a ser. Pretendia ele transformar sua audiência em cidadãos alemães modelares, que recusassem as diferenças regionais e de classe em nome da unidade que Fichte evocava e afirmava, de fato, já existir. O “eu absoluto” do idealismo filosófico ressurge, agora, corporificado na unidade absoluta do povo alemão.

No entanto, é necessário notar que, quando da redação das Mensagens, o termo “Alemanha” não era mais que uma vaga expressão geográfica. Não havia Estado alemão unitário, nem nada como uma “nação germânica”. Com efeito, a noção de pátria que então começava a florescer possuía um sentido bastante local, bem adaptado à enorme dispersão política então prevalecente. O “torrão natal” não era associado a quaisquer “impérios”, mas ao ducado, à cidade, à comuna rural. Fidelidades patrióticas também eram subvertidas com frequência, em um período no qual um provincianismo generalizado coexistia com o cosmopolitismo iluminista esposado pela classe de intelectuais. Essa mentalidade absolutamente contraditória, simultaneamente internacionalista e localista, não poderia sobreviver muito tempo em meio ao turbilhão da era napoleônica.

“O Exército revolucionário francês atuou como […] parteiro do nacionalismo alemão: a humilhação pela derrota e o ressentimento com o tratamento conferido às terras germânicas ocupadas, primeiramente sob o Diretório e mais tarde sob Napoleão, forjaram uma nova solidariedade enraizada no sofrimento e na adversidade compartilhados. De enorme importância foi, igualmente, a mudança operada no significado do próprio termo ‘nação’, mais obviamente e consequentemente sob a influência de Johann Gottfried Herder. Enquanto Karl Eugen, Duque de Württemberg, ecoou certa vez Louis XIV quando ele desdenhosamente declarou ‘Eu sou a pátria’, Herder viu a nação como coextensiva com o povo ou Volk, a totalidade de dada comunidade cultural e étnica [...]. A Volksnation, a resposta germânica à nação cívica da França, foi crescentemente vista como tendo uma identidade distinta das instituições feudais ou estatais.” (MOORE in FICHTE, 2008, p. xv).

Quando Fichte pronunciou suas Mensagens no anfiteatro da Academia de Ciências de Berlim, fazia já um ano da vitória dos exércitos franceses sobre a Prússia — último Estado germânico a resistir a Napoleão — na Batalha de Jena. Os objetivos de seu trabalho não eram meramente acadêmicos. “Desejo não apenas pensar, mas agir”, dizia FICHTE (2008). Ele era, de fato, um homem voltado à ação prática, que pretendia transpor o gap entre filosofia e vida cotidiana. E o que via como sua principal tarefa político-prática no momento era influenciar a opinião pública alemã no sentido da luta contra a ocupação francesa e pela construção da nação germânica.

Fichte vê a invasão francesa não apenas como resultado da crise alemã, mas como uma mudança profunda de significado universal. O colapso prussiano, por sua vez, confirmava o diagnóstico de que os próprios alemães haviam atraído para si a catástrofe militar e moral ao levarem às últimas consequências o materialismo egoísta herdado dos franceses.

Para Fichte, o que faz dos alemães, alemães é uma atitude moral, uma visão de mundo caracterizada pelo sempre mesmo dinamismo, por uma abertura à mudança que estaria impressa no caráter nacional alemão, bem como em seu idioma. Ser não germânico é acreditar que tudo é fixo e estabelecido, como acreditavam os materialistas franceses. Essa visão, que reduz o universo a grupos de átomos untados mecanicamente pelas forças da física de Newton, seria a visão de uma natureza morta, própria de mentes igualmente mortas.

Ao cair sob a dominação estrangeira, a Alemanha, tendo esgotado sua capacidade de decadência, precisava resgatar-se a si própria em uma nova era. Era necessário renascer, e esse renascimento não seria possível senão por meio de uma refundação não apenas política, mas também espiritual.

Embora as Mensagens tenham sido produzidas como resposta a uma situação histórica particular — o colapso do antigo regime germânico sob as baionetas de Napoleão —, seu significado ideológico e filosófico é por demais amplo. Seria possível dizer, mesmo, que a própria ideia de nacionalismo como a conhecemos hoje deve muito às Mensagens e a outros textos proeminentes do Romantismo alemão.

Os princípios da ideologia nacionalista esposados pelo Romantismo alemão atravessariam terras e mares, vindo a servir propósitos mais ou menos semelhantes, porém em contextos diferentes. Não será outro o motivo por que lemos em Gonçalves Dias:

Quanto é grato em terra estranha
Sob um céu menos querido,
Entre feições estrangeiras,
Ver um rosto conhecido;

Ouvir a pátria linguagem
Do berço balbuciada,
Recordar sabidos casos
Saudosos — da terra amada!

E em tristes serões d'inverno,
Tendo a face contra o lar,
Lembrar o sol que já vimos,
E o nosso ameno luar!

Certo é grato; mais sentido
Se nos bate o coração,
Que para a pátria nos voa,
P'ra onde os nossos estão!

Depois de girar no mundo
Como barco em crespo mar,
Amiga praia nos chama
Lá no horizonte a brilhar.

E vendo os vales e os montes
E a pátria que Deus nos deu,
Possamos dizer contentes:
Tudo isto que vejo é meu!

Meu este sol que me aclara,
Minha esta brisa, estes céus:
Estas praias, bosques, fontes,
Eu os conheço — são meus!

Mais os amo quando volte,
Pois do que por fora vi,
A mais querer minha terra,
E minha gente aprendi.

Na próxima parte desta série de artigos examinaremos como o sentimento nacionalista se reflete na afirmação linguística e no resgate das mitologias populares.