Artigos

Nem Prisão, Nem Exílio

Liszt Vieira Publicado em 29.10.2018

Aos 45% do eleitorado que souberam decifrar o monstro, digo que devemos gritar, alto e bom som: Nem Prisão, Nem Exílio. Vamos organizar a resistência democrática, antes que esse monstro destrua o Brasil

Decifra-me ou Te Devoro

Antes de ser preso e até mesmo depois, Lula liderava as pesquisas de intenção de voto para presidente. Pouco antes da eleição de primeiro turno, Bolsonaro disparou na frente. O que explica esse deslocamento de votos do candidato de um partido de esquerda para um candidato de extrema direita?

Essa pergunta é importante. Primeiro, porque esses votos foram talvez o fiel da balança que garantiu a vitória do candidato de extrema direita. Segundo, porque essa pergunta envolve uma questão que vem sendo negligenciada pelos analistas políticos e pelas ciências sociais.

Essa massa de votos deslocados da esquerda para a extrema direita não estaria a indicar um elemento messiânico no voto a líderes carismáticos que tem sido ignorado pelas análises eleitorais? São votos sem conteúdo político, sem referência programática, sem ideologia. 

Trata-se provavelmente de um contingente de eleitores que buscam um salvador da pátria, um líder messiânico, um Pai que vai impor a Ordem e garantir os valores conservadores por detrás de slogans como Pátria e Família. É uma hipótese a ser pensada para compreender a votação desses eleitores, em geral de baixa renda e escolaridade, que transferiram seus votos de Lula para Bolsonaro. 

Outra questão a ser melhor analisada é a comparação entre a Lava Jato no Brasil e seu modelo inspirador, a Operação Mãos Limpas na Itália. Lá, o combate não foi só contra a corrupção dos políticos, foi também contra a Máfia. Houve desvios e parcialidades, mas no Brasil o viés político-partidário foi muito maior. 

A Lava Jato protegeu os Juízes e os políticos corruptos do PSDB. Os primeiros, em muitos casos, continuam vendendo sentenças Brasil afora. Os segundos, com raríssimas exceções, não foram processados pela Justiça. E as milícias, versão brasileira da máfia, não foram incomodadas, nem mesmo pela intervenção militar no Rio de Janeiro que só cuidou do tráfico de drogas, deixando no ar uma suspeita de cumplicidade com a ação criminosa das milícias que agora, com a eleição de seu candidato, vai certamente se fortalecer.

Um exemplo notável da parcialidade da Lava Jato foi a condenação, sem provas, do ex-presidente Lula, que afrontou a consciência jurídica do país e será considerado pela História como um estudo de caso de Justiça de Exceção. E, como agravante, o país viu estarrecido a decisão espantosa da Justiça de violar a liberdade de expressão e liberdade de imprensa ao proibir Lula de dar a entrevista solicitada pelo jornal Folha de São Paulo.

É interessante também comparar os resultados políticos da Operação Mãos Limpas e da Lava Jato. Na Itália, a ação da Mãos Limpas desembocou na eleição de Berlusconi, um político de direita, dono de canais de TV, de estilo histriônico e imoral, segundo os padrões dominantes. No Brasil, a Lava Jato desembocou na eleição de Bolsonaro, um capitão afastado do Exército por indisciplina e desequilíbrio psico-emocional, de ideias fascistas, um adepto da violência bruta como solução para tudo, um medíocre que nada fez em 27 anos como deputado, um ignorante truculento que fugiu dos debates porque não tem nada a propor.

Sua ameaça de mandar seus opositores, chamados de "marginais vermelhos", para a prisão ou exílio, é uma bravata digna de seu herói Pinochet, admirador de Hitler, que matou milhares de pessoas no Chile. Se quiser governar dentro das regras democráticas, o candidato de extrema direita terá de fazer autocrítica de suas declarações passadas de apoio à tortura, à guerra civil para matar 30 mil pessoas, de seus comentários misóginos, homofóbicos, racistas, machistas etc. Sem esquecer de pedir desculpas ao ex-presidente Fernando Henrique, a quem ameaçou matar.

Eleito, querendo ou não, será presidente do país, e não apenas de seus eleitores. Na prática, governará para os agentes econômicos do mercado e para as camadas de alta renda, reforçando mecanismos repressivos autoritários e antidemocráticos. A classe média e principalmente os pobres rapidamente compreenderão que ajudaram a eleger um monstro que irá devorá-los, porque não souberam decifrá-lo. 

E àqueles 45% do eleitorado que souberam decifrar o monstro, digo que devemos gritar, alto e bom som: Nem Prisão, Nem Exílio. Vamos organizar a resistência democrática, antes que esse monstro destrua o Brasil. Caberá às forças vivas da sociedade civil, além dos partidos, construir uma Frente Democrática Ampla, pluripartidária, para defender a democracia, o Estado de Direito e a justiça social que se encontram em perigo pelas ameaças totalitárias do candidato vencedor. 

Liszt Vieira - Professor da PUC e Defensor Público no RJ

Publicado em Carta Maior