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Cinco anos sem João Zinclar, o operário da fotografia

Augusto C. Buonicore Publicado em 17.01.2018

João Zinclar não está mais entre nós. Aos 54 anos de idade – em 19 de janeiro de 2013 - foi vítima de um estúpido acidente rodoviário. Mas pessoas como ele não desaparece tão facilmente. Continuam vivas e nos provocando através das obras que nos legaram.

“Mudar o mundo eu acho que é uma tarefa muito maior do que a fotografia. Mudar o mundo é ter milhões de pessoas na rua em movimentos contra os opressores, contra as ditaduras, é isso que muda o mundo” (João Zinclar, em ‘Caçadores de Alma’ de Sílvio Tendler) 

João Zinclar não está mais entre nós. Aos 54 anos de idade – em 19 de janeiro de 2013 - foi vítima de um estúpido acidente rodoviário. Mas pessoas como ele não desaparece tão facilmente. Continuam vivas e nos provocando através das obras que nos legaram.

O seu enterro foi algo bastante emblemático. Centenas de pessoas de todas as organizações políticas e sociais vinculadas aos trabalhadores lá estiveram. Algo que há muito tempo não se via. Aquela manifestação era um retrato fiel do João, que soube como poucos articular a combatividade com a amplitude política. Duas virtudes difíceis de ser compatibilizadas numa mesma pessoa.  Sabia que os verdadeiros inimigos estavam do outro lado da cerca. Por sinal, foram eles que inventaram as cercas.

Operário da fotografia, esta era a definição que ele gostava de se dar e não sem razão. João nasceu em 13 de agosto de 1956 na cidade gaúcha de Rio Grande, importante centro operário. Seu pai era ferroviário e sua mãe trabalhadora da indústria pesqueira. Sua origem humilde obrigou-o a trabalhar muito cedo – aos treze anos - como entregador de roupas, repositor de mercadorias, estafeta em banco etc. Tornou encanador-industrial e com suas mãos de operário ajudou a construir o aeroporto Galeão no Rio de Janeiro, os alto-fornos da Cosipa em Cubatão, a Rhodia em Paulínia e o Pólo petroquímico de Camaçari na Bahia.

Um dia resolveu abandonar aquela vida e, como hippie, envolveu-se em novas e atribuladas aventuras pelo litoral e interior do país. Seguiu pelo mundo “sem lenço e sem documento”, como dizia a canção. Passou a ser outro tipo de operário, que não tinha patrão e era dono de suas próprias ferramentas e destino. Agora, como simples artesão, produzia brincos, pulseiras, colares que vendia pelas ruas e feiras de nossas cidades.

Eram tempos sombrios. A ditadura militar considerava os hippies verdadeiros “parasitas da nação”. Segundo João, quando abordados pela polícia que lhes exigia documentos, “mostrávamos as mãos calejadas não pela enxada de um camponês ou o martelo de um operário, mas pelos alicates com os quais a gente entortava o nosso arame e fazíamos o nosso artesanato”.

No final dos anos 1970, antenado com os novos ventos trazidos pela ascensão dos movimentos sociais, voltou ao seu estado e reassumiu o posto de operário industrial. Os trabalhadores e estudantes já estavam nas ruas exigindo seus direitos e mais liberdade. A fim de participar desse grande processo de mudança que vivia o país, João aderiu ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). 

 

Em 1984 mudou-se para Campinas. Aqui começou a militar no Sindicato dos Metalúrgicos e se tornou uma das mais respeitadas lideranças operárias da cidade.

Desde cedo João se interessou pela fotografia. Antes de abandonar Rio Grande ganhou uma máquina Cânon do seu irmão. Vez ou outra fazia fotos das atividades que participava. Contudo, somente quando saiu da diretoria do sindicato pode se dedicar àquilo que mais gostava. Disse: “agora eu vou fotografar. Mas, vou fotografar as lutas sociais”.

Toda essa bagagem existencial serviu para transformá-lo num fotografo muito especial, que sabia como ninguém captar através de suas lentes o que acontecia nas ruas, nas fábricas, nas ocupações e nos assentamentos. Não era alguém estranho a esse meio. Era parte integrante da paisagem social que documentava. Dizia que o que o motivava a fotografar era a luta de classes. E a sua máquina era “um instrumento a serviço das mudanças sociais.

João não se considerava um artista. Nisso ele estava errado. Basta ver as fotos desta exposição – que não são meros registros jornalísticos - ou folhear a sua obra prima “O rio São Francisco e as águas no sertão”. Contrariando a sua opinião, podemos dizer que ele foi um grande artista. Um dos melhores que o movimento social produziu.

No final da vida João não militava mais em nenhum partido político, mas nunca deixou de se considerar um comunista. Ser comunista, não dependia de uma simples ficha ou de uma carteirinha militante, e sim o compromisso com as transformações revolucionárias da sociedade, na construção de um mundo mais justo, sem opressão e exploração.  

 

* Publicado originalmente no Portal Vermelho em janeiro de 2014

**  Augusto Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução, publicados pela Editora Anita Garibaldi.